sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Teletubie

O Brasil havia perdido para a Rússia por 3 sets a 1 (25/22, 24/26, 29/31 e 19/25) de maneira incontestável. Não cubro vôlei normalmente, mas nos últimos tempos era a primeira vez que tinha visto uma seleção nitidamente melhor do que a nossa. Bernardinho tentou de tudo no quarto set, mas não conseguiu superar o paredão russo.

Mas o que mais me chamou a atenção foi durante a entrevista coletiva. Não, não foi nenhum destempero verbal de nosso treinador, nem uma declaração arrogante do adversário ou alguma gafe dos tradutores, como já se tornou freqüente.

O que mais contrastava ante o visual de lenhador do técnico Vladimir Alekno e do capitão russo, Vadim Khamuttskikh, era esse simpático mascotinho aí. Ignoro de onde veio. Me fez lembrar os saudosos teletubies.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Corra, busão, corra


Não quero parecer que isso aqui vire um painel de reclamações. Mas o sistema de transporte é uma coisa que não funciona na Olimpíada. Outro dia, saí do Main Press Center (o centro de imprensa, onde a mídia escrita centraliza seus trabalhos) por volta das 2h20 da madrugada.

Afora uma chuva torrencial, quando cheguei ao ponto de ônibus com destino ao North Star Media Village, onde estamos hospedados, havia uma filha que cruzava os dois pontos seguintes. Alguns poucos estavam de guarda-chuva. A maioria, após uma longa jornada de trabalho e carregando pesadas bolsas, se protegia como podia.

Pois bem, o ônibus das 2h30 não passou. E não era por falta de veículos. Havia ao menos uns 20 estacionados logo atrás dos pontos. Mas, onde a burocracia grassa, não se poderia deslocar um ônibus que já não iria levar ninguém até o vôlei de praia ou ao beisebol, por exemplo, para realocar os jornalistas, Às 2h45 chegaram dois ônibus, logo tomados. Não consegui entrar no segundo, que fechou as portas pouco antes de chegar perto dela. Peguei o ônibus das 3h. Também lotado, mas ao menos consegui sentar.

Não dá para se programar pelos horários fornecidos pela organização. Outro dia peguei o ônibus para o ginásio Capital, onde acontecem as partidas de vôlei, acreditando que fosse chegar a tempo de assistir Brasil x Sérvia desde o início. Afinal, no guia de transporte dizia que o percurso levaria apenas 25 minutos. Gastamos mais de 40. Para o vôlei de praia, o guia diz que levaríamos 27. Nunca fiz o trajeto em menos de 35 (normalmente muito mais do que isso). Da Media Village para o MPC o guia instrui que levam 15 minutos. Normalmente leva meia hora.

A via exclusiva é quase desnecessária, já que os ônibus andam numa lentidão desesperadora. Acontece de pegarmos congestionamento na via ao lado e nosso ônibus, com a pista livre, andarem na mesma velocidade do que os carros quase parados.

Ranhetice? Nem tanto. Na Olimpíada, cinco minutos é um tempo preciosíssimo. Pode ser a diferença entre conseguir fazer uma baldeação do MPC para algum ginásio ou ter que esperar mais meia hora pelo ônibus seguinte.

Durante os Jogos, chegamos a cobrir quatro eventos no mesmo dia. E meia hora a menos no busão, pode significar um lanchinho rápido ou ter que esperar até as 2h para jantar, sem ter almoçado. Os horários são irregulares e comemos, e até conseguimos ir ao banheiro, realmente quando dá tempo, entre um evento e outro.

Nada disso tira a empolgação por cobrir uma Olimpíada, e correr alucinadamente entre uma arena de tênis de mesa, abarrotada de chininhas ensandecidos, para a quadra de vôlei de praia, que lembra as arenas de Copacabana, dali para o treino do atletismo, na porta do túnel de acesso à pista do belo Ninho de Pássaro. O sono e a fome podem esperar, né?

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Onde até o Red Bull é censurado


Essa é, definitivamente, a Olimpíada da censura e do moralismo. Seja pela internet bloqueada para sites como o Chiclete Livre (não, não vou escrever o nome daquele país porque ainda quero escrever outros posts no blog por aqui) ou FG (aquele movimento banido na China). Seja pelo tamanho do biquíni das dançarinas na arena de vôlei de praia (como pode ser conferido na foto).

Logo no início dos Jogos, meu e-mail deu pau. Fiquei um dia inteiro sem poder acessá-lo. O motivo? Havia recebido um correio eletrônico vindo do Brasil, cujo conteúdo era censura. Dias depois, conversei com um membro da ONG Olympic Watch, que sugeriu a "adoção" de um preso político por delegação. Me passou qual seria a presa a ser adotada pelo Brasil. Mas era impossível acessar o site da entidade, porque seu subtítulo dizia: "direitos humanos na China".

Dias depois foi a vez de a internet de um coleguinha (me censuro a dizer seu nome), parou de funcionar. O aviso: o usuário acessou conteúdo pornográfico. Ora, afora a discussão sobre o que é ou não pornográfico, para qual padrão de moralismo, é algo normal, o usuário acessar tais páginas em um local em que se trabalha o dia inteiro e se vêem poucas mulheres. Pois é, infelizmente, Olimpíada ainda é muito masculina, ao menos no centro de imprensa.

No vôlei de praia, o moralismo também se impôs. Lembro que em Atenas as dançarinas, arregimentadas por uma companhia das Ilhas Canárias, eram um show à parte. Acredito que um dos grande motivos para as arenas lotarem tenha sido a presença a presença delas. Aqui, os trajes usados pelas animadoras dos intervalos são tão pudicos que poderiam ser utilizados tranqüilamente pelas vovós em Peruíbe, sem causar estranhamento a ninguém.

Absurdo maior, pelo menos para mim, aconteceu hoje pela manhã. As "razões de segurança" cada dia surpreendem mais. Ao tentar deixar a vila de mídia com uma latinha de Red Bull, fui impedido. "Não pode entrar com bebida alcoólica no MPC", justificou a voluntária, mesmo eu argumentando que Red Bull nunca foi bebida alcoólica. Tive que voltar, beber minha latinha diária (é um dos combustíveis para aguentar extenuantes jornadas de 15, 16 horas por dia).

Se sobrasse algum tempo para tomar uma breja, a dificuldade também seria imensa. O produto simplesmente é banido no centro de imprensa. Na vila de mídia, é vendido em uma lojinha que funciona só até as 22h (horário absolutamente impensável para jornalista ter conseguido retornar para seus apartamentos). Outro dia conseguimos comprar algumas latinhas. Estão me esperando todos os dias na geladeira. Devem ficar guardadas pro dia 24.

Azul celeste






Hoje pela manhã, quando saía da Media Village, cruzei com um coleguinha fazendo cooper. Amo correr e isso realmente está me fazendo uma falta danada. Que saudades da endorfina liberada após um treino mais longo, de uma hora, uma hora e meia no Ibirapuera.

Por falta de tempo e receio do clima, aqui tive que abandonar os treinos completamente. Cheguei em Pequim dia 26 de julho. Desde então, vi dois dias de céu azul. Mas nada que pareça sequer o azul da poluída São Paulo, como dá para ver na foto acima, tirada em frente ao MPC (Main Press Center), onde os coleguinhas escrevem suas matérias. Nada empolgante.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Noite de tiete


Jogo entre Estados Unidos e China, pela primeira rodada do torneio de basquete olímpico. Nas arquibancadas, George W. Bush acompanhava tudo atentamente. O placar do jogo, 101 a 70 a favor dos norte-americanos foi o que menos importou.

O clima de festa era sentido das arquibancadas desde o início e nem parecia que estávamos em uma séria competição olímpica. A torcida fazia festa tanto para as cestas de Kobe Bryant quanto para as de Yao Ming. Sem distinção.

Bandeiras dos EUA e da China tremulavam, impunemente, uma ao lado da outra, nos três anéis de arquibancadas dos Ginásio Olímpico de Basquete.

No anel inferior, a presença de Glenn Close e Jared Leto davam um clima holywoodiano à festa. Parecia um jogo do Los Angeles Lakers pela NBA.

Na saída do ginásio, eis que dou de cara com a atriz de "A casa dos espíritos" e "Coisas que você pode dizer só de olhar para ela". O pedido de foto é irresistível.

"Glenn, posso tirar uma foto contigo?", abordo quando ela já estava deixando o ginásio.

"Mas estou tão feia", responde ela, com certa razão. O tempo não foi um bom amigo para a estrela de "Ligações Perigosas".

"Mas eu sou teu fã", justifiquei, com um ar de admiração. Simpática, ela topou.

domingo, 10 de agosto de 2008

Morando no serviço


Até o início da Olimpíada passávamos boa parte do dia no centro de imprensa, o famoso MPC (Main Press Center). Fica perto do Cubo d'Água e do Ninho de Pássaro, as duas jóias arquitetônicas da Olimpíada.

Como pouca coisa acontecia nas arenas esportivas, com exceção de treinos esparsos, alguns fechados aos coleguinhas, era aqui que ficávamos apurando matérias, telefonando, checando dados e participando de coletivas.

O local é imenso. Escrevo no espaço número 656 da sala destinada aos jornalistas de imprensa escrita. É maior do que a de Atenas, que também era bastante grande.

O mais engraçado por aqui são que a cada Olimpíada a gama de serviços oferecidos aumenta. Atualmente é possível fazer massagem gratuita (antes da Olimpíada ainda dava para encarar, agora a fila é imensa).

Ao lado fica uma academia de ginástica, com alguns aparelhos de musculação e esteira. Pois é, dei uma de colunista e, nos primódios de nosso trabalho aqui, consegui dar uma corrida, sem precisar respirar o ar fétido de Pequim.

Também existe, perto dali um salão de cabeleleiro e barbearia. Até o final da Olimpíada, com certeza passarei por lá.

Mas a coqueluche entre os repórteres são os sofás encurvados. Como o fuso é meio zoado para quase todos os que cobrem a Olimpíada, muitos aproveitam esses locais para tirar uma soneca. Não é raro encontrarmos coleguinhas gringos dormindo lá, em forma de conchinha. Ontem, um deles até roncou no sofá perto da nossa mesa.

É tanta facilidade que, se descobrir um chuveiro por aqui, começo a acreditar que existem repórteres que estão usando o MPC também como alojamento.

Solidariedade olímpica

Cobrir Olimpíada é, também, um exercício de solidariedade. Não importa que o repórter ao lado seja do jornal, TV, rádio ou internet concorrente. Lógico que todo mundo quer dar furos(o que numa cobertura dessa dimensão e com tanta gente próxima, é difíci). Mas quando você vê seu coleguinha em apuros por não ter chegado a tempo à coletiva ou à zona mista, ou precisando de uma aspa básica, não há nada de mal em cedê-la. Afinal, hoje é seu concorerente que precisa, amanhã pode ser você.

Em Atenas-04 aconteceu caso engraçado. Tínhamos combinado com o Rogério Daflon, do Globo, de sairmos para tomar umas brejas. Aquele seria um dos poucos dias mais tranqüilos, já que as provas de vela, que o Daflon, eu e o Guilherme Roseguini, na época colega da Folha, estávamos cobrindo, acabariam cedo.

Acho que isso foi no dia em que Torben Grael e Marcelo Ferreira ganharam o bicampeonato olímpico. Como estávamos em dois, acabamos relativamente cedo nossos textos e ficamos esperando o Daflon. O problema é que ele, sozinho, descobriu que teria que escrever muito mais que a gente.

"Quer uma ajuda?", brinquei. Todos rimos diante do absurdo que seria a situação. Infelizmente, a cervejada nunca aconteceu.

Ontem foi a vez de um desses anjinhos me ajudarem. Conheci a Janaína Frare, do Sportv, também em Atenas. E a reencontrei só em grandes eventos: Pan do Rio e agora na Olimpíada de Pequim.

Estava na arena de vôlei de praia, relativamente tranqüilo, pensando nos três textos que precisaria mandar para São Paulo. Só que tinha me esquecido que nosso fechamento no sábado seria às 13h do Brasil ou meia-noite daqui.

Diante do atraso (já eram umas 21 horas e não havia mandado nenhum texto), corri para a sala de imprensa e deixei meu gravador digital nas mãos da Janaína. Não teria tempo de fazer zona mista e coletiva do jogo de estréia de Ana Paula/Larissa. Em uns 20 minutos já tinha mandado os textos de basquete. Pouco depois, foi o material de vôlei de praia masculino, sobre a estréia de Emnanuel e Ricardo, ocorrida naquela manhã.

Quando estava começando o texto do vôlei de praia feminino, ela chegou com as gravações salvadoras. Tinha tido até a boa vontade de fazer uma pergunta que precisava para meu texto. Tudo chegou a tempo em São Paulo, 40 minutos antes do fechamento da edição nacional nossa. Não teria conseeguido isso sem a ajuda dela.